Há dias em que o coração chama por uma palavra que só existe na infância da alma: mãe. E quando digo mãe, digo Dona Auta… mulher nordestina de fé antiga, dessas que não precisavam de discursos para ensinar o que é grandeza.
Mamãe era feita de silêncio e de coragem. Não tinha pressa para falar, mas tinha urgência para amar. Dedicou a vida ao marido, Seu Severino, aos filhos, à casa cheia de gente, à igreja que ela cuidava como quem cuida de um filho também. Era assim: se alguém precisava, ela aparecia. Se havia uma promessa, ela rezava. Se havia um sofrimento, ela acolhia.
Lembro dela acordando antes do sol, acendendo o fogão e, antes de qualquer coisa, acendendo também uma vela. Era sua conversa com Deus. Sua forma de pedir proteção para o dia que começava. Naquela chama pequena havia uma mulher inteira: fé, doação e esperança.
Mamãe nunca quis riquezas. Sua riqueza era ver a família reunida, ver o povo rezando, ver a igreja cheia nas novenas. Ela ensinava sem perceber que ensinava. Com gestos. Com generosidade. Com aquele olhar que dizia tudo sem precisar levantar a voz.
Hoje, no Dia da Mulher, penso que muitas falam de força feminina como se fosse descoberta recente. Mas eu vi essa força dentro de casa. Vi nas mãos de Dona Auta lavando roupa, fazendo comida, ajudando o próximo, rezando pelos filhos e acreditando na providência divina mesmo quando os dias eram duros.
Ser mulher, para ela, nunca foi discurso. Foi missão.
E talvez por isso a saudade seja tão grande. Porque mães assim não vão embora completamente. Elas ficam espalhadas pelas coisas simples: no cheiro do café, na sombra do juazeiro, na vela que ainda se acende no altar.
Quando penso em Dona Auta, não vejo apenas minha mãe. Vejo uma mulher nordestina inteira… dessas que carregam o mundo nos ombros e ainda encontram tempo para agradecer a Deus.
E é por isso que hoje, entre a saudade e a gratidão, eu digo com o coração cheio:
Mãe, a senhora continua me ensinando. Mesmo depois de tanto tempo, continuo aprendendo a ser mulher olhando para a senhora.
CLEUDIA BEZERRA PACHECO
























